Crônicas

Da arte de ignorar

Elizabeth Pinheiro

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Dia desses descia as duas quadras da minha casa que me levam à padaria mais próxima. Entre um movimento ou outro para ajeitar o inajeitável amassado do meu vestido, dou uma espiada de longe para o horizonte, eis que me deparo com o inesperado: um pseudo-conhecido.

Um pseudo-conhecido é o sujeito que, por assim dizer, você conhece, mas não tem contato. Vocês não têm intimidade alguma, tampouco assunto, e que dirá clima para uma troca de palavras. O meu pseudo-conhecido estava lá, andando devagar, para o meu desespero, e com o olhar ainda vago, pouco longe de perceber a minha vontade de fugir dali o mais depressa possível.

Mas para um pseudo-conhecido lhe enxergar é sempre uma questão de segundos. E em menos de três lá estava o meu, com as feições abobalhadas, tal como eu, me olhando e pensando, provavelmente, no que faria no derradeiro momento em que nos cruzaríamos. Essa é a hora em que você abaixa o rosto rumo à sua bolsa, para procurar um molho de chaves qualquer, ou um batom inexistente. Foi exatamente o que fiz. Para o meu total desespero, nada do que havia dentro da minha bolsa de mão seria convincente de ser mexido ali, no meio da rua. Só me restou abaixar os braços (e os olhos) em direção ao meu joelho, como que se estivesse limpando uma sujeira qualquer, invisível aos olhos do meu pseudo-conhecido, mas visível demais aos olhos do meu pânico.

Limpei, mas de nada adiantava. Logo eu cruzaria com aquele sujeito, e eu não poderia ficar tanto tempo assim limpando uma simples poeira do joelho, não seria nada agradável para o meu pseudo-conhecido, que não quero cumprimentar, mas por quem ainda guardo uma consideração mínima, embora nem saiba o seu nome. De onde o conheci? Talvez da escola, há uns 10 anos. Ou será alguém que freqüentava a mesma missa que eu? Tento puxar da memória, mas em vão. Não devíamos ter de cumprimentar pessoas de tanto tempo sem se ver! Isso é mesmo necessário? E se o meu pseudo-conhecido foi um desafeto? E se eu tropecei em seu sapato no passado, e ele guarda rancores de mim? Melhor não cumprimentar. Mas se foi um ex amigo, desses que a gente nem se lembra mais, vai ser muito pior não dizer um “oi”.

A essa altura tudo estava prestes a acontecer, mais um passo e eu teria de decidir se cumprimentava, ou não. Isso estava ficando cada vez mais difícil. A certa altura ele me olha abrindo um sorriso amarelo, que me deixou ainda pior. Vi que realmente o conhecia de algum lugar, afinal de contas, por que estaria sorrindo com esse sorriso cheio de dentes para mim? Entre um segundo de ansiedade e outro de empolgação, ele me dispara:

“ –Ivone! Está sumida do curso!”

Eu, visivelmente confusa, respondo:

“- Ivone? Pois é… que curso?”

“- Ora, do curso de mergulho!

Claro. O curso de mergulho – que eu nunca fiz. Nem meu nome é Ivone, para o meu alívio na hora. Depressa eu vi que não conhecia o sujeito, devia ser um desses vizinhos de quadra que a gente nem sabe se conhece, ou quiçá se existe. O meu pseudo-conhecido, que eu sequer conheci, nem me deixou responder. Só recomendou um:

“Apareça, Ivone!”

Saí de alma leve, nem precisei dizer muito para o sujeito. Como é bom sair de casa e não dar de caras com um pseudo-conhecido.

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3 thoughts on “Da arte de ignorar

  1. Ao ler, dei uma bela risada mas, sabe, isso vai de encontro com algo que penso a dias.

    Esquecemos como socializar. Simples assim. Abrir uma janela é muito mais fácil do que convidar para tomar um café. A rejeição de uma janela é muito mais brando do que a de uma pessoa.

    Porém perde-se o encanto de ouvir o bom dia de um estranho, de imaginar cada pessoa como uma caixa de surpresas, como quem escolhe à sorte um bombom numa caixa de chocolates sortidos, sem saber o que será, o que virá.

    uma pena que tenhamos encontrado uma forma de legitimar a costumeira falta de coragem, o medo de socializar. Talvez fosse melhor à moda antiga, quando eramos forçados a contornar, acostumar e, por fim, superar a timidez.

    Por que? Por que cafés são, e sempre serão, muito, muito melhores que emoticons.

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