Textos

nunca se esqueça de deixar algo esquecido

Hoje lembrei daquele fim de tarde em que fui devolver suas coisas. Aquelas tantas que você foi deixando em casa. Seus livros,  discos, revistas, seu mundo. Um pedaço dele dentro do meu quarto – como se já não bastasse o outro que ainda morava dentro de mim.

Aí me dei conta que ainda tenho um livro seu, que você fez questão de me dar nesse dia. Nunca li. Nunca tive coragem de abri-lo.
É que quando vou limpar o quarto e esse livro aparece, as memórias me trazem, teimosas, o cheiro de incenso do teu apartamento, e outras tantas imagens. Lembro dos fins de tarde que, enquanto a cidade lá fora trabalhava, o meu cabelo caía, preguiçoso, sobre o seu rosto, assim como o sol depois das seis. E a gente ria, dançava descalços sobre o piso frio de azulejo do meu quarto e nada mais importava, desde que houvesse eu, você e a minha vitrola à meia luz.
Achei que seria importante te avisar que deixei um grampo de cabelo meu dentro de um livro seu. Larguei, “esquecido”, para um dia você abri-lo e, quem sabe, as lembranças te assaltarem, como vivem fazendo comigo.
Já dizia a minha avó que, para ser lembrado, nunca se esqueça de deixar algo “esquecido”.

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