Textos

nunca se esqueça de deixar algo esquecido

Hoje lembrei daquele fim de tarde em que fui devolver suas coisas. Aquelas tantas que você foi deixando em casa. Seus livros,  discos, revistas, seu mundo. Um pedaço dele dentro do meu quarto – como se já não bastasse o outro que ainda morava dentro de mim.

Aí me dei conta que ainda tenho um livro seu, que você fez questão de me dar nesse dia. Nunca li. Nunca tive coragem de abri-lo.
É que quando vou limpar o quarto e esse livro aparece, as memórias me trazem, teimosas, o cheiro de incenso do teu apartamento, e outras tantas imagens. Lembro dos fins de tarde que, enquanto a cidade lá fora trabalhava, o meu cabelo caía, preguiçoso, sobre o seu rosto, assim como o sol depois das seis. E a gente ria, dançava descalços sobre o piso frio de azulejo do meu quarto e nada mais importava, desde que houvesse eu, você e a minha vitrola à meia luz.
Achei que seria importante te avisar que deixei um grampo de cabelo meu dentro de um livro seu. Larguei, “esquecido”, para um dia você abri-lo e, quem sabe, as lembranças te assaltarem, como vivem fazendo comigo.
Já dizia a minha avó que, para ser lembrado, nunca se esqueça de deixar algo “esquecido”.

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Gastronomia

Saudade

Essa que me fez

andar quilômetros

tomar condução com chuva a cântaros

passar frio

fome

vontade de você: a pior das privações.

Mas que foram todas esquecidas

relevadas

superadas

deixadas pr’a depois

quando na estação você me abraçou

e o mundo era, então

só de nós dois.

Nota
Poemas e poesias

Restos

Quando eu sinto vontade de te escrever, as palavras me vêm assim, tentando sair das entranhas.  Não como o sibilar do vento, que sossegado anda vadio por essas vielas. Mas como o mais frio dos projéteis. Rápidos, imprecisos, desordenados, assim como ficam as minhas ideias, quando ainda lembro de nós. As palavras se excedem dentro da minh’alma, e tentam escorrer como que implorando pra se esvaírem. São excessos, restos de coisas que precisavam sair.

Mas quantas são as coisas que te escrevi, e que nunca te mandei, e nem nunca vou mandar. No máximo vão ficar empoeiradas dentro d’uma caixa velha e barata, esperando guardar um dia alguma lembrança tua, feito um cartão-postal. Sabe que tenho ouvido muito a nossa música? Ela me faz lembrar de quando eu me despedi de você no meu apartamento já vazio, com as mudanças todas encaixotadas. Em meio a muita poeira, com a minha cabeça deitada no seu peito, eu me vi perdida. “Será que eu nunca mais vou te ver?”, pensei, – tão sábia.

Mas vou deixar de divagar, afinal, vamos estar sob o céu da mesma cidade por alguns dias, e se eu te vir, sei que você vai estar com um cigarro na mão, e com outra garota n’outra
uma que não te gosta assim, como eu te gostei tanto.

 

 

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Poemas e poesias

Tempo

Brisa. Vento leve, rápido, efêmero. Esse foi você. ziguezagueando pela minha existência.
Pousou feito borboleta, das que a presença despretenciosamente se deseja
Soprou breve um ar de manhã de sol nessas minhas retinas desfeiadas.
Me fez deixar vícios, desafetos, dissabores
Adentrou devagar e devagar também se foi.
Breve vento esse seu nas minhas cortinas
Agora não há nem sequer um sopro
Ligeira foi a sua vida na minha
E ainda estático o que eu não consigo deixar de sentir.

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Crônicas

Da arte de ignorar

Elizabeth Pinheiro

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Dia desses descia as duas quadras da minha casa que me levam à padaria mais próxima. Entre um movimento ou outro para ajeitar o inajeitável amassado do meu vestido, dou uma espiada de longe para o horizonte, eis que me deparo com o inesperado: um pseudo-conhecido.

Um pseudo-conhecido é o sujeito que, por assim dizer, você conhece, mas não tem contato. Vocês não têm intimidade alguma, tampouco assunto, e que dirá clima para uma troca de palavras. O meu pseudo-conhecido estava lá, andando devagar, para o meu desespero, e com o olhar ainda vago, pouco longe de perceber a minha vontade de fugir dali o mais depressa possível.

Mas para um pseudo-conhecido lhe enxergar é sempre uma questão de segundos. E em menos de três lá estava o meu, com as feições abobalhadas, tal como eu, me olhando e pensando, provavelmente, no que faria no derradeiro momento em que nos cruzaríamos. Essa é a hora em que você abaixa o rosto rumo à sua bolsa, para procurar um molho de chaves qualquer, ou um batom inexistente. Foi exatamente o que fiz. Para o meu total desespero, nada do que havia dentro da minha bolsa de mão seria convincente de ser mexido ali, no meio da rua. Só me restou abaixar os braços (e os olhos) em direção ao meu joelho, como que se estivesse limpando uma sujeira qualquer, invisível aos olhos do meu pseudo-conhecido, mas visível demais aos olhos do meu pânico.

Limpei, mas de nada adiantava. Logo eu cruzaria com aquele sujeito, e eu não poderia ficar tanto tempo assim limpando uma simples poeira do joelho, não seria nada agradável para o meu pseudo-conhecido, que não quero cumprimentar, mas por quem ainda guardo uma consideração mínima, embora nem saiba o seu nome. De onde o conheci? Talvez da escola, há uns 10 anos. Ou será alguém que freqüentava a mesma missa que eu? Tento puxar da memória, mas em vão. Não devíamos ter de cumprimentar pessoas de tanto tempo sem se ver! Isso é mesmo necessário? E se o meu pseudo-conhecido foi um desafeto? E se eu tropecei em seu sapato no passado, e ele guarda rancores de mim? Melhor não cumprimentar. Mas se foi um ex amigo, desses que a gente nem se lembra mais, vai ser muito pior não dizer um “oi”.

A essa altura tudo estava prestes a acontecer, mais um passo e eu teria de decidir se cumprimentava, ou não. Isso estava ficando cada vez mais difícil. A certa altura ele me olha abrindo um sorriso amarelo, que me deixou ainda pior. Vi que realmente o conhecia de algum lugar, afinal de contas, por que estaria sorrindo com esse sorriso cheio de dentes para mim? Entre um segundo de ansiedade e outro de empolgação, ele me dispara:

“ –Ivone! Está sumida do curso!”

Eu, visivelmente confusa, respondo:

“- Ivone? Pois é… que curso?”

“- Ora, do curso de mergulho!

Claro. O curso de mergulho – que eu nunca fiz. Nem meu nome é Ivone, para o meu alívio na hora. Depressa eu vi que não conhecia o sujeito, devia ser um desses vizinhos de quadra que a gente nem sabe se conhece, ou quiçá se existe. O meu pseudo-conhecido, que eu sequer conheci, nem me deixou responder. Só recomendou um:

“Apareça, Ivone!”

Saí de alma leve, nem precisei dizer muito para o sujeito. Como é bom sair de casa e não dar de caras com um pseudo-conhecido.

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Música

Um som da alma para os palcos

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Com apenas dois anos de estrada, a banda Soul Acústico carrega no nome traços da música cantada com a alma, mesclando ritmos dançantes e alegres no cenário musical maringaense

Elizabeth Pinheiro

 A descontração dos integrantes da “banda mais praiana da cidade”, como se intitulam, casa de forma harmônica com a proposta dos músicos. “Temos a intenção de fazer um som sincero, para cima e com um bom astral”, explica o vocalista Leandro Calixto, também gaiteiro. Fora da banda, trabalha com vendas, em Maringá.

Sentada com Leandro, Luiz Trevisan, do contra baixo, e André Bett, do violão, nossa entrevista se pareceu muitas vezes com um bate-papo entre velhos amigos, num bar boêmio das redondezas da Universidade Estadual de Maringá, em meio a risadas e boas histórias para contar dos integrantes, que têm em comum o gosto pela praia, o surf, e a velha amizade entre eles.

As influências do repertório de shows da Soul Acústico são muitas: desde as músicas praianas do reggae e surf music, ao bom e velho rock’n roll, com elementos do Rhythm and Blue, que juntos, embalam apresentações com clima alto astral e de boa música nacional.

O trio teve formação inicial com o uso apenas da voz, violão e um cajón – instrumento de percussão originário do Peru colonial – também conhecido como uma caixa de tomates, como brinca Leandro. “Desde o começo, queríamos fazer um som diferente, por isso a pegada do acústico em nosso nome. Não queríamos colocar bateria nem guitarra”. Mas o projeto do grupo foi reestruturado desde então. “Hoje a gente trabalha com músicos contratados para tocar junto conosco. Quando fazemos shows, tocamos junto com um baterista, percursionista e um tecladista, é a nossa base”, explica Luiz. Conforme o show, a formação de músicos contratados muda, sendo um diferencial da banda.

O velho cajón deu lugar a uma aparelhagem de percussão digna de filmes, com sons variados e utilizados para envolver o público em meio a mistura de ritmos. Tudo em um só instrumento, para agregar às apresentações animadas do trio.

O pouco tempo de experiência com o estilo musical de Soul Acústico não atrapalha o caminho de conquistas que a banda tem trilhado. Na cidade de Campo Mourão, já de início, abriram show para o americano Colby Lee Huston, cantor americano residente no Brasil desde 2007, e inspirado nas vertentes de Ben Harper e Jack Johnson – influência significativa para os músicos da banda.

“Esse fato acrescentou muito para nós. Acho que houve uma troca boa, para Huston também. Conversamos bastante após o show e fomos convidados a fazer um som em Florianópolis junto com ele. Mas cada um tem sua vida, não vivemos da música e não podemos sair do trabalho para isso. A realidade ainda não é essa”, aponta o vocalista.

A moda sertaneja prevalecente na cidade não atrapalha o sucesso da banda. “Maringá é uma cidade legal, os universitários da região saem bastante. Então esse público acaba conhecendo e curtindo nosso trabalho”, diz Bett.

O trio em essência

O contrabaixista Luiz Trevisan já toca há 14 anos em bandas, e trabalhou no ano de 2002 em uma das maiores bandas covers do Legião Urbana, com produtora do Rio de Janeiro. “Na época eu tinha 20 anos, mas não era músico do grupo, trabalhava na parte técnica. Com o tempo, fui tendo vontade de ter minha própria banda, até que consegui e acabei tendo várias outras bandas de rock.” Mas só depois de alguns anos, Luiz resolveu se dedicar mais à música. “Houve um período em que trabalhei como gerente de vendas em uma loja, e meu contrabaixo ficou parado embaixo da cama, durante seis anos. Aí conheci o Bett e o Leandro e decidimos montar a ‘Soul’ – nome inicial da banda em 2010.

Nas horas vagas, os integrantes têm também em comum o gosto pelos esportes radicais. “Tenho paixão pelo surf, mas não posso praticá-lo com a freqüência que gostaria, porque moro em uma cidade de interior”, conta André Bett. Já Luiz diz gostar de coisas “não muito convencionais” como o paraquedismo, mergulho, voos de asa delta e tudo quanto envolve doses cavalares de adrenalina. A irreverência marcante fica por conta de Calixto, apaixonado por longboard (tipo de skate de tamanho maior), que se diverte andando pela cidade com o quase inseparável skate. Ele brinca: “enquanto as pessoas estão presas no semáforo às 8h, com as caras fechadas, eu passo ‘remando’ com meu long, e isso é muito bacana”.

Calixto nunca teve influência de familiares e amigos para tocar em uma banda. Entretanto, diz ter nascido com a “música estampada na testa”, o que se percebe também claramente nos outros dois músicos. Segundo Bett, a melhor característica da banda é a de fazer um som sincero, sem pensar em retorno financeiro. “Definitivamente não é nosso foco. A gente faz porque gosta, e desce do palco com um sorrisão no rosto”. E finaliza: “Em cima do palco, o nosso único sustento é a alegria e a alma”.

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Gastronomia

La Bistronomique : Gastronomia em arte e simplicidade

Nada de pompas nem preços colossais. A bistronomia, movimento gastrônomico originado da França, mescla traços da culinária clássica francesa, com a liberdade de criação e criatividade do chef de cozinha.

Elizabeth Pinheiro

Em 1992, o chef francês Yves Camdeborde criou o primeiro restaurante com este conceito. O bistrô La Regalade, localizado em Paris, transformou receitas de restaurantes sofisticados da cidade luz em pratos criativos e autorais, com um ingrediente que os diferenciava dos mais refinados: preços acessíveis.

É também do pioneiro o atual bistrô Lê Comptoir du Relais, famoso por sua comida exuberante a preços modestos, onde as reservas para uma mesa de jantar devem ser feitas com, pelo menos, seis meses de antecedência, tamanha é a apreciação por seus pratos com a vertente da Haute Cuisine e de preços justos.

Envolvente e intimista, a estrutura de um bistrô é traçada pela simplicidade e sutileza de decoração e disposição de mesas. Com um ambiente pequeno e aconchegante, possui poucas mesas e equipe ainda menor. Os pratos desse tipo de restaurante variam constantemente, no máximo a cada seis meses, por sua singularidade de criação, o que o diferencia dos restaurantes de linha tradicional.

Segundo o chef de cozinha Rozberg Formigoni, do Buffet Limani, de Maringá, o maior padrão que se percebe para a bistronomia hoje, no Brasil, é a valorização do regional: a mistura de traços da culinária local com a inspiração da cozinha francesa. O chef, que trabalhou antes em um bistrô na cidade de Richmond, nos Estados Unidos, aponta que a tendência é seguida em muitos países, onde pratos são criados com ingredientes típicos e se mesclam num toque autoral à tradicional linha francesa.

Sem “Menu”

Neste tipo de restaurante, não é comum o uso de cardápio. O prato do dia é apresentado ao cliente pelo próprio criador – o chef. A receita então é elaborada a partir do gosto de quem vai degustar e, portanto, se torna única. A qualidade do serviço de um bistrô é um fator tão importante quanto à peculiaridade de seus pratos. Por se tratar de um ambiente com número limitado de mesas, e mais aconchegante, os gostos de seus clientes são altamente prezados na elaboração das receitas.

Em São Paulo, quem impulsionou a tendência regionalista na bistronomia foi o chef Alex Atala, proprietário do bistrô D.O.M – considerado um dos sete melhores restaurantes do mundo pela conceituada revista britânica Restaurant Magazine. Atala foi um dos primeiros chefs a compor, em seus pratos de linha francesa, ingredientes como a tapioca, o feijão e a banana. Esta mistura confere texturas e sabores únicos, que conquistam paladares de críticos e gourmets1 de todo o mundo.

A composição de um prato regionalista na linha da bistronomia é basicamente criterizada de acordo com a sazonalidade dos produtos e da criatividade do chef. “O bistrô dá essa liberdade para o chef criar com elementos locais, misturar técnicas tradicionais e ingredientes regionais. Não há sofisticação, o chef vai às feiras, encontra bons produtos e os incrementa de acordo com sua livre criação e a mistura de elementos da cozinha francesa”, aponta o chef Rozberg Formigoni. Esta identidade também é fortemente apreciada em países como o Japão, a Itália e a Espanha e por isso, em São Paulo, já existem alguns restaurantes que reúnem as características da bistronomia, com inspirações italianas, por exemplo.

A vantagem de degustar tais criações é muito apreciada também por leigos no assunto. “Acho que esta tendência vem para eliminar o caráter elitista que as refeições de outros países podem ter. Com menores preços, isso pode se popularizar e abranger um público maior”, opina Alexandre Terumi, estudante de medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

O fator principal na elaboração dos pratos da bistronomia consiste no talento em aproveitar e utilizar os benefícios dos mais variados ingredientes a fim de que os pratos tenham o preço reduzido, mas que tenham qualidade. Longe de grandes e pesadas, as refeições servidas em um bistrô são como singelas obras de arte, em que toda tradição gastronômica está impressa, e unida à inventividade e livre criação do chef.

1. Pessoa a quem é atribuída a qualidade de paladar apurado e conhecimento avançado em gastronomia.

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